Pe. Cláudio Weronig

 

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A Nossa Família Religiosa
CARISMAS

LINHAS ESSENCIAIS DO CARISMA LANTERIANO

No que consiste exatamente o “carisma lanteriano”? Um carisma religioso é uma realidade espiritual, dom do Espírito Santo com o qual um Fundador e os seus seguidores acolhem e vivem, de modo particular, o essencial do Evangelho. Como tal, situa-se no âmbito do Mistério e foge a toda formulação precisa e definida. Podemos, todavia, delinear seus traços essenciais meditando a vida e as palavras de Pe. Lanteri e procurando compreender suas intuições fundamentais. Proponho-vos aqui, muito sinteticamente, aquilo que caracteriza o carisma lanteriano.

Um senso vivo da Misericórdia de Deus manifestada em Jesus Cristo. O Deus que cativou Pe. Lanteri é um Deus de bondade e de misericórdia: o Pai que, como Bom Pastor, enviou seu Filho para salvar todos os homens. Pe. Lanteri coloca o Cristo manso e misericordioso no centro de tudo. Experimenta-O como companheiro de vida, como seu mestre, seu modelo, seu auxílio, sua recompensa. Fez-se sua ardente testemunha em todas as suas atividades. O coração lanteriano vive na presença de um Deus que ama cada um por si mesmo, gratuita e infinitamente, e sabe que “a salvação do homem é o que mais interessa aos cuidados da Providência”. Essa visão inspira algumas atitudes características. Uma confiança sempre renovada em Deus: “Destrua logo no fogo da caridade toda falta, e repita resolutamente a cada momento: Eu disse, agora começo”. Um amor fraterno que assume os traços de uma grande humanidade: “O amor com o qual se amarão será um amor cordial, como convém a verdadeiros irmãos de uma mesma família, um amor afável..., previdente..., sofredor..., mesmo a custo de ‘qualquer sacrifício’ ”. Enfim uma bondade que permeia todo o estilo da evangelização: “No coração de Lanteri a verdade está sempre unida ao amor: zelando sempre pela verdade no espírito de caridade, procurando conquistar primeiro o coração que o espírito, fazendo amar a verdade mesma, a qual defende e ensina”.

Um amor filial por Maria. À idade de vinte e dois anos o jovem Lanteri entregou-se totalmente a Maria com a confiança de um filho. Mais tarde dirigia-se a Ela com essa fervorosa oração: “Virgem Santa, Mãe de Deus e minha Senhora, eu vos peço duas coisas, todas as duas necessárias para mim: dai-me o vosso Filho, ele é o meu tesouro, sem ele eu sou pobre; levai-me ao vosso Filho, ele é a minha sabedoria e a minha luz, sem ele eu estou nas trevas”. Cristo permanece sempre o centro de toda a visão teológica e da espiritualidade de Pe. Lanteri, mas a Virgem Maria ocupa um lugar privilegiado como Modelo de fé e Mãe que leva a Cristo. No brasão dos Oblatos lemos: “Mariam cogita, Mariam invoca”. Uma frase de S. Bernardo que nos convida a contemplar a figura de Maria como no-lo apresenta o Evangelho, modelo de disponibilidade total à Palavra e ao Espírito; e a invocar Maria, com uma oração confiante que coloca na sua materna intercessão todo o nosso ser e o nosso agir. Elemento importante da espiritualidade de Pe. Lanteri é a oferta de si mesmo ao Senhor pelas mãos de Maria.

Um senso genuíno de fidelidade à Igreja. Pe. Lanteri citava freqüentemente as palavras de Cristo “O meu ensinamento não vem de mim mesmo, mas daquele que me enviou” (Jo 7,16) para fundamentar a sua plena adesão ao ensinamento da Igreja. Ele convida os Oblatos a professar uma “inteira, sincera e inviolável obediência à autoridade da Santa Sé, e uma dedicação completa ao seu Magistério”. Trata-se de um elemento importante do espírito de comunhão com a Igreja, do “sensus Ecclesiæ” que deve caracterizar o espírito lanteriano. A inserção na caminhada da Igreja, o amor ao Papa e a escuta solícita da sua palavra são algumas atitudes essenciais para o lanteriano, tanto na própria formação como em toda iniciativa apostólica. Tal espírito implica também uma atenção particular para o trabalho em sintonia com a Igreja local, que tem no bispo o primeiro responsável.

A pedagogia inaciana. Lanteri escolheu o caminho inaciano seja para a própria vida espiritual, seja como meio apostólico. “Os Exercícios de Santo Inácio são, em geral, um instrumento poderosíssimo da divina Graça para a reforma universal do mundo, e particularmente, um método seguro para cada um fazer-se santo, grande santo, e em pouco tempo”. Os Exercícios propõem um caminho espiritual que ensina a contemplar Cristo na oração para seguí-lo radicalmente e viver plenamente o Evangelho na própria vocação. A pedagogia inaciana ajuda a unir fé e vida, forma homens e mulheres livres, capazes de discernir os chamados do Senhor nas situações concretas da história; é um caminho seguro de crescimento espiritual. O lanteriano situa-se, portanto, no filão da grande família inaciana que já soube, especialmente nos últimos anos, renovar e atualizar a pedagogia de Santo Inácio. Convém acrescentar que Lanteri nutre a sua vida espiritual com tantos outros grandes mestres: Santo Afonso de Ligorio, São Francisco de Sales, Santa Teresa d’Ávila, e tantos outros padres da Igreja e teólogos, ensinando assim a importância de formar-se à escola dos grandes autores da vida cristã.

Uma fervorosa e inteligente consciência apostólica. Uma chama ardente consumia-se em Pe. Lanteri: consumia-se do desejo de ajudar todos a encontrar Cristo. Para realizar isso a sua ação apostólica desenvolveu-se de um lado em direção à uma evangelização da pessoa em profundidade, particularmente com a confissão e a orientação espiritual, e de outro lado em direção à evangelização da cultura, especialmente através da difusão da imprensa. Duas direções complementares que Pe. Lanteri teve presente durante toda a sua vida. Sua característica foi ainda a preocupação não somente de evangelizar, mas também de formar evangelizadores. As suas intuições apostólicas podem seguramente ainda hoje inspirar a criatividade de tantos homens e mulheres que, sensíveis a todas as angústias e as esperanças do mundo, procurem os caminhos mais eficazes do amor e do serviço. Com Pe. Lanteri o coração apostólico empenha-se em “fazer conhecer e sentir a todos os homens dóceis à graça que o interesse mais essencial de sua verdadeira felicidade exige que eles unam-se ao Sumo Bem”. Paulo VI na sua sempre atual Encíclica Evangelli Nuntiandi resume o sentido autêntico da evangelização em termos que teriam alegrado Lanteri: “Poder-se-ia exprimir tudo isso dizendo: importa evangelizar – não de maneira decorativa, com que aplicando um verniz superficial, mas de maneira vital, em profundidade e isto até às suas raízes – a cultura e as culturas do homem, no sentido pleno e amplo que estes termos têm na Constituição “Gaudium et Spes”, a partir sempre da pessoa e fazendo continuamente apelo para as relações das pessoas entre si e com Deus” (EN, 20).

São esses portanto, sucintamente apresentados, os traços essenciais que, tomados no seu conjunto, delineiam uma certa “fisionomia” do carisma lanteriano.

PE. PATRICE VÉRAQUIN, OMV

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