Pe. Cláudio Weronig

 

......

O Venerável Padre Lanteri
SEMINARISTA EM TURIM

Ao vestir a batina, Pio Bruno sentiu crescer o desejo de fazer grandes coisas pelo Senhor. Concluindo o curso de Filosofia em Cúneo, dirigiu-se para Turim a fim de iniciar os estudos de Teologia. Passou a residir junto à paróquia de “Santa Maria di Piazza” em vista das atividades pastorais e começou a estudar na “Regia Università”.

No entanto, mais uma vez adoeceu: por causa da fraqueza da respiração não podia aplicar-se em escrever muito e a visão já desgastada não lhe permitia estudar o quanto seria necessário. Não obstante estas graves dificuldades, o seminarista Lanteri nunca cogitou abandonar o estado eclesiástico. Confiante em Maria, da qual esperava sempre ajuda e conforto, supriu a tudo com a sensibilidade do seu engenho e a força da sua vontade.

Ouvia as lições dos professores com a maior atenção, e retirando-se em seu quarto, as relembrava e examinava parte por parte, subdividindo-as e imprimindo-as na emória tão clara e perfeitamente que não poderia esquecê-las mais. Além disso, pedia para que alguns colegas lessem os apontamentos das explicações que ouvira na escola, de modo que pudesse debater com os mesmos.

Assim, da recíproca comunhão dos ensinamentos recebidos dos mestres, bem como da meditação, não obstante as grandes dificuldades, no curso normal de cinco anos conseguiu com muito louvor a graduação e, mais adiante, o doutorado.


O PADRE NICOLAUS VON DIESSBACH

Naquela época vigorava, inclusive nas universidades, a heresia do Jansenismo que, falseando o conceito de Deus e da Redenção, se infiltrava nas almas com o pretexto e a aparência de uma mais severa austeridade de princípios. A graça de Deus que conduz à salvação vinha descrita como privilégio de poucos; para a Confissão e a Comunhão exigiam-se disposições pouco menos que heroicas; a frequência ao Sacramento era considerada como um abuso irreverente e de culpa; as formas do culto, mais aceitas pelo povo, como a devoção ao Sagrado Coração e a Nossa Senhora, eram hostilizadas como argumento de decadência religiosa. Assim, a piedade cristã tornava-se árida desde suas nascentes.

O seminarista Lanteri foi preservado das infiltrações jansenistas no ambiente universitário, por conta do seu diretor espiritual, o Padre Nicolaus von Diessbach (1732-1798), jesuíta, que conheceu logo naqueles primeiros dias que estava em Turim, e em quem confiou integralmente como filho e discípulo.

O Padre Diessbach, humilde e zeloso defensor da fé, se agarrava com alegria a qualquer oportunidade de fazer o bem e, muitas vezes, conduzia consigo o jovem Lanteri em suas santas estratégias para evangelizar, principalmente através da difusão de bons livros: frequentando casas privadas, praças públicas, cafés, hotéis, cantinas e pequenas igrejas, entabulavam, antes de tudo, uma conversa amigável com alguns presentes, a partir de temas diversos e, usando de bons conselhos e exortações brincalhonas ofereciam livros e folhetos, ou às vezes os esqueciam no local, ou ainda presenteavam-nos como por acaso, objetivando selar amizades apenas surgidas.

Depois de passar os dias naquelas andanças apostólicas, passavam as noites nas conferências espirituais e científicas da “Amizade Cristã”, que era constituída por grupos de leigos e leigas que visavam o estudo e a difusão de bons livros em prol da fé. Por fim, dedicavam-se ao atendimentos do mais pobres nas cadeias e hospitais, bem como aos sem teto, promovendo alguns meios que viessem restituir a dignidade destes filhos e filhas de Deus.


O “SIM” DEFINITIVO

Aproximando-se da recepção da Ordem do Subdiaconado, convencido que a sua doação irrevogável a Deus não poderia melhor ocorrer senão pelas mãos da Sua meiga Mãe Celeste, no dia da Assunção em 1781, estando uns dias com sua família, quis consagrar-se primeiro para Maria, como seu escravo de amor, para que as suas mãos maternas o apresentassem em seguida, como uma oferenda viva, ao Seu Filho Divino:
“Cúneo, 15 de agosto de 1781.

Saibam todos aqueles em cujas mãos poderá chegar este documento, que eu abaixo assinado, vendo-me como escravo perpétuo da Beata Virgem Maria, com doação pura, livre e perfeita da minha pessoa, com todos os meus bens, para aquilo que Ela dispor de sua livre vontade, como verdadeira e absoluta Senhora minha. E como me julgo indigno de tanta graça, peço ao meu Santo Anjo da Guarda, S. José, S. Teresa, S. João, S. Inácio, S. Francisco Xavier, S. Pio e S. Bruno que intercedam por mim junto à Maria Santíssima de modo que Ela se digne de receber-me entre os seus escravos. Em conformidade a tudo isto me subscrevi:
Pio Bruno Lanteri”.

Para preparar-se melhor à sagrada ordenação, em setembro de 1781, o seminarista Pio Bruno se retirou em Mondovì para os Exercícios Espirituais. No dia 22 do mesmo mês foi promovido subdiácono e, três meses depois, no dia 22 de dezembro, foi ordenado Diácono em Turim.

Em 1782, o Papa Pio VI decidiu ir à Viena a fim de se encontrar com o Imperador Giuseppe II que, tomado por ideias nacionalistas e influenciado por maus conselheiros, buscou subordinar as manifestações do culto e da vida religiosa ao arbítrio absoluto do poder civil. O Padre Diessbach como bom soldado de Cristo, vendo as maquinações dos ímpios contra o Pontífice, concebeu o ardoroso pensamento de acorrer em sua defesa e, levando consigo o diácono Lanteri puseram-se, através da propaganda pessoal, pregação, divulgação de livros e opúsculos profundamente católicos, e desdobrando-se em todas as obras de caridade e de assistência religiosa, a preparar para o Santo Padre uma acolhida festiva com todas as manifestações da mais sincera veneração.

Por fim, tendo o Papa retornado a Roma, padre Diessbach, sabendo que Viena oferecia ainda um campo vastíssimo ao seu apostolado, sentiu que Deus o queria lá, e depois de muitas preces, com imensa dor, mandou o diácono Pio Bruno de volta a Turim. Ali, em 25 de maio de 1782, na Igreja da Imaculada em Turim, Lanteri foi ordenado sacerdote pelo Arcebispo Dom Vitório Caetano Costa de Arignano. O seu lema foi: “Tudo para Aquele que é tudo. Vença a si próprio: coração solícito, generoso, ardente, sem capitulação e reserva, para Deus e o próximo”.

Além disso, escreveu estes propósitos que podem dar uma ideia do seu espírito de perfeição: “ao rezar a Missa, no Intróito conquistarei a afeição e o coração do Publicano, no Glória o dos Anjos, nas Orações o de Legado, na Epístola e no Evangelho o de Discípulo, no Credo o de Mártir, na Oblação o de Melquisedec, no Prefácio o da Corte Celeste, na Consagração o de Jesus Cristo, no Pater o de mendigo, no Agnus Dei o de réu, na Comunhão o de amante, no Ite Missa est o de Apóstolo”.

Dois meses após a sua ordenação, Lanteri conseguia brilhantemente, com louvor, a graduação em Teologia. Este sucesso não diminuiu, mas, aumentou nele o amor ao estudo. Alguns meses depois, prestado o exame de confissão, obteve plena aprovação pelo Arcebispo de Turim.
 

VOLTAR